sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A dieta do palhaço

A tarde caía rapidamente e os moradores de rua já demarcavam seus territórios. As portas de aço rolavam com rispidez ao som ecoado quando chocadas ao chão. Era um sábado, como outro qualquer na esquina da Rio Branco com a Nilo Peçanha. E após um dia carregado, entre compras e trocas, estava faminto, definitivamente. Iniciei minha busca por um lugar a se lanchar com decência. Descartando qualquer pastel chinês 24h e fast-foods. Andei como nunca. Todos já repousavam em suas casas. E eu, não poderia enfrentar duas horas de congestionamento na nossa agradável Av. Brasil, faminto. Exausto, vi como uma miragem maldita, os arcos dourados brilhando foscamente no alto, em meio a outdorrs. O maldito Mc'Donald's. Após sete anos longe da dieta do palhaço macabro, tive de me render aos apelos do meu estômago.
Entrei desconfiado, porém, não intimidado com o marketing estúpido de cores e personagens. Fui direto e pedi um Big Mac acompanhado por refrigerante médio, nada mais. Logo, tive de ser grosseiro até conseguir rejeitar a proposta de refrigerante grande e batata-frita. De pé, observei como espião como preparavam meu sanduíche por detrás das máquinas. Sempre desconfiado, tenso. Tomei meu pedido e sentei-me numa mesa distante. Daí começou a enchente de arrependimento. Meu refrigerante, antes uma Fanta, tinha kilos de cubos de gelo, o que anestesiava a boca como Lidocaína. Aguada... Tampada a mascarar a sabotagem. A caixinha onde jazia o tão famoso Big Mac, um tanto torta, fora aberta na esperança de depois de anos, ter se redimido quanto ao meu paladar. Deixei a formalidade de lado e pensei: "- Porra nenhuma!". Ainda parecia um bicho recém executado e tostado ainda em vida. Sem qualquer semelhança ao banner acima de minha cabeça. Após quatro ou cinco mordidas caninas, achei a cereja do bolo, que por pouco não me fez vomitar. "Esqueci da porra do picles!!!" Larguei metade do refrigerante aquoso e o Big Merda, mutilado como um cadáver sobre a mesa... Parecia sangrar. Saí rapidamente, com um gosto amargo na boca e um desgosto azedo no coração nacionalista, em saber que meu país abriu tantas portas para essas fábricas de lixo. Senti saudades das empadas da dona Edite...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A morte de uma amizade

Shakespeare dizia que melhor que fazer novas amizades é manter os velhos amigos. Genial, de fato. De passagem, ele fez muitos amigos depois que se fora. Quem sabe tenha mantido enquanto vivo. Eu, de passagem, não...
Quando adolescente, acreditava que tudo seria o sempre, até o dia de minha morte - talvez. Mas o tempo, além de trazer minha glória, minha felicidade, me tomou o que um dia parecia infinito: Minhas antigas amizades. Há quem fora levado pela morte, pela distância necessária, pelo sucesso profissional, de cada um. Mas de todas as perdas, o tempo foi o maior ladrão. Como a maresia corroe o aço que ancora o barco à beira-mar. Porém, desta vez, a onda não traz de volta.
O tempo, meu caro, não adverte. Um dia você estará sentado, tomando uma cerveja, jogando conversa fora. Quando perceber, ao seu lado estará um estranho. Não mais com quem você dividia seus problemas e seus momentos felizes. E sim, meu caro, alguém que não te faz bem, nem te faz diferença. Só mais um... Apenas um estranho. Nada mais...
Eis a morte de uma amizade...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Na minha "Umbre-ela"...

A chuva golpeava o telhado da cobertura bruscamente. Meu guarda-chuva parecia não mais sustentar-se. Quando surgiu no breu, uma figura feminina de pouco mais de trinta anos, completamente encharcada, desviando-se das poças d’água. Quando pensei em oferecer meu guarda-chuva, notei que a água provocava um apego de sua blusa branca ao seu corpo acentuado, logo desisti.
Ela abraçava o próprio corpo, com frio, e as gotas pingavam de seus cabelos escorridos, grudados em seu rosto. A chuva já não parecia tão forte, comparada ao dilúvio que ocorria em minha mente.
Um forte clarão iluminou tudo à volta e a mulher estendeu seu braço a frente, dando sinal ao ônibus, o qual eu já havia esquecido que esperava. Assim que parou exatamente à minha frente, estendi o guarda-chuva à sua cabeça e lhe dei passagem. Sorridente, ela agradeceu-me e subiu a minha frente, ainda completando:

“ – Ainda bem que ainda existe cavalheirismo!”

Assenti falsamente, com um sarcástico sorriso nos lábios.
Mal sabia que ao passar na minha frente, me concedeu uma bela visão de sua bunda, molhada, marcando a espessura de sua pequena calcinha...

sábado, 10 de outubro de 2009

Que assim seja

Quando houver nossas fotos penduradas na geladeira
Quando revezarmos as noites pra esquentar a mamadeira
Quando ver nosso cachorro correndo no quintal gramado
Com cerca de madeira pintada de branco
Quando a gente se beijar no corredor do supermercado

Quando vermos nosso filho engatinhando no tapete da sala

Quando eu te ter no meu colo, afagando seus cabelos
Quando contarmos nossas rugas na frente do espelho

Quando eu te acordar na manhã de domingo com um beijo na testa

Quando eu te ligar só pra dizer que te amo

Quando a gente adormecer no sofá da sala, sábado à noite

Quando a gente assistir o pôr-do-sol

Quando eu te ligar pra te lembrar de tomar o seu remédio

Quando a gente sentar no chão, procurando o disco da trilha sonora de nosso primeiro beijo

Quando eu te molhar com a mangueira enquanto regava as flores do nosso jardim

Quando eu ver nossa felicidade estacada num porta-retratos

Quando a gente contar as estrelas, deitados na areia

Quando eu ver nossas vidas completas.

Quando te assistir dormindo, com as mãos debaixo do rosto, como há vinte e seis anos atrás.

Como quando éramos jovens,
Como é agora,
Como te amo,
Como nunca deixei de te amar um só dia.
Como vou deixar meu corpo frio ao lado teu,
E te esperar no além,
Pois nossa história não tem fim,
Sou só eu feito pra você e você feita pra mim.

sábado, 26 de setembro de 2009

Os pilares da felicidade

Quando criança, costumava acordar às seis da manhã. Calçava-me às pressas, com os olhos cheios de areia e corria para a varanda pra esperar minha mãe. Descíamos o longo caminho de nossa casa até a estrada, pra esperar o padeiro passar com sua velha Brasília bege. Em meio aos pães franceses, minha mãe levava alguns cruzeiros a mais pra comprar um pão suíço. Um dia era meu e noutro, de minha irmã. Confesso que nos dias que não eram meus, desejava que seu pão suíço caísse no chão (Como criança é boba!).
Quando o natal se aproximava, folheava os jornais da Casa & Vídeo, vendo preços dos vídeo games recém-lançados e mesmo sabendo que não o teria nem tão cedo, circulava ofertas, lia e relia três, quatro vezes. Tive meu primeiro Master System, vendendo frutas que meu avô me cedia nas feiras de Domingo. E como dei valor a aquele brinquedo... Assoprava, polia, Dobrava os fios metricamente. Era um devoto do Sonic.
Ainda novo, construímos nossa própria piscina. Com pedras da cachoeira e regada pela mesma. A água cortava a pele de tão fria, mas lá ficava, de dedos enrugados, feliz da vida.
A vida não foi fácil. Era difícil pra uma criança assistir o comercial dos Comandos em ação sem ter o helicóptero no tapete da sala. Mas por outro lado, o pouco que tivemos, foi usado até perder a cor, o brilho, mas não perdeu o valor. De uma vida digna, banhada de bons risos e momentos inesquecíveis (Certo macaco Tião?). Não tínhamos por perto tudo que se desejava, mas tínhamos um valor maior que qualquer brinquedo da Estrela, Vídeo cassete de 7 cabeças ou a Boneca Barbie original: Tínhamos (E temos...) a nós mesmos...

sábado, 12 de setembro de 2009

Bebês arianos

Eles estão por toda a parte: Nos pacotes de fraldas, nos outdoors, nos planos de saúde, em animações infantis. Senão fosse o cheiro de talco, me cheiraria a uma grande conspiração. Um renascimento oculto do Nazismo, onde o mundo está sendo conquistado aos poucos pela raça ariana. De bochechas rosadas, cabelos repartidos a lá Hitler e dedos gordinhos apontados à sua cara. São preferidos e idolatrados, todos querem ter um. A lista de espera na adoção, rejeitam os demais como num campo de concentração. Dessa vez, sem holocausto. Somente uma fogueira social que aquece as vaidades dos adoradores de cabelos loiros e olhos azuis. É o mundo como todos queriam, mas que não admitem na frente da televisão. Onde a diversidade dá lugar a um desejo uniforme, linear e estúpido.
Nunca vi fralda com estampado de criança negra, e acredito que meu filho vá nascer, crescer, parar de defecar em si mesmo e essa história não vai mudar. É a oculta e sombria Suástica invertida que habita o coração de muita gente por aí.

domingo, 9 de agosto de 2009

A loira do corredor

Eu estava sentado à beira do corredor, excepcionalmente de casaco sobre os ombros como um gentleman urbano, de pernas elegantemente cruzadas com a mão esquerda no queixo e a direita segurando a caneta. Refletindo sobre a implantação da ditadura militar promovida por Vargas no Brasil. Um tanto mais de elegância e seria quase um Willian Bonner, me faltando apenas um terno e uma Fátima Bernardes. Foi aí que ouvi à minha esquerda, passos medidos e virei minha cabeça. O tempo ficou em slowmotion, quando me vinha uma jovem loira caucasiana, de olhos verdes semi-acirrados, marchando belamente em minha direção. Parecia comercial de xampu, seus cabelos esvoaçavam em abundância, passo a passo. Simplesmente cinematográfico. Ao chegar próximo de mim, o espaço era curto, então investi-lhe uma olhada de Jude law e afastei minha perna, outrora cruzada, pra deixar que a dama passasse antes que parasse – pois isso seria deselegante.
Com toda a sinceridade, esperei um leque de atitudes daquela jovem: Um “obrigada”, um sorriso meia-boca, um “com licença” mesmo que ainda não a atrapalhasse ou simplesmente um desprezo, considerando o fato que ela fosse fiel a um suposto namorado. Mas em vez disso tudo, ela simplesmente foi passando e ao chegar ao meu lado, abaixou a cabeça levemente, deslocou seus olhos verdes e (Nesse momento meu coração palpitou mais forte) olhou a marca do meu tênis. Não contente, andou mais três passos e olhou pra trás, pro meu tênis novamente.
Senti-me decepcionado, não pelo fato de não ter a atenção da bela jovem (Como ela, despojei outras, modéstia à parte) mas pelo fato de concretizar minhas faculdades de que essa juventude me envergonha. Por sua falta de cordialidade, educação, coleguismo e esse abismo que existe entre os valores da vida e os valores materiais. Melhor dizendo, dessa classe social que em vez de diferenciar “socialismo”, diferencia “humanos” de “humanitários”. Voltei meus pensamentos ao estado novo de Getúlio Vargas, pois senti vontade de envelhecer o mais rápido possível, mas assim encurtaria minha vida sexual, seja com jovens fúteis, seja com mulheres que sabem o que vale a pena...

Fecha aspas.

sábado, 18 de julho de 2009

Não contém glúten

Quando se trabalha pela madrugada, os contatos sociais são escassos. Por isso faço amigos invisíveis, recebo visitas espirituais e jogo “resta um” (Quem se lembra dessa beleza?). Além de todo esse ritual, você fica mais perspicaz também. Tudo que vê, lê. Tudo que cheira bem, inala, tudo que parece gostoso come, você vira um cão vira-latas, quase que literalmente. A grande diferença é que na Barra da Tijuca, é que em vez de cheirar as cachorras antes de cruzar, deve-se fazer elas cheirarem sua carteira. Se tiver um safári de onças pintadas e um American Express, você está dentro. Mas voltando ao assunto, almoçando às 2:30 da manhã, me divertia furtivamente lendo embalagens de produtos comestíveis, quando notei que a maioria continha em seus rodapés, uma mensagem clara, com direito a Caps Lock e tudo: “NÃO CONTÉM GLÚTEN”. Achei ela interessante e pro fabricante se dar ao luxo de destacar assim, é porque glúten deve ser o demônio mesmo! Tal feito mudou minha vida, e hoje sou mais seletivo no que como. Antes de me preocupar com camisinha, pergunto a mulher se ela contém glúten.

sábado, 27 de junho de 2009

Como ser um cidadão sexual

...Os beijos, abraços e carícias já estavam atingindo a temperatura supernova quando decidi que era hora de levar o animal pra abate. Estava ela: linda, morena e feliz. Ela me olhou nos olhos e disse: “Eu não quero dormir em casa hoje!”. Pedido atendido. Se tem algum lugar que fica aberto 24 h sem ser sua casa, esse algum é o Habibs. Mas como não queria comer nada com a boca, preferi ir pro motel mesmo. Chegando lá, pedi Apê com discrição, com meia fresta da janela aberta. Foi aí que a recepcionista me pediu que adiantasse 50% do valor. A princípio até aceitei e saquei minha humilde carteira, mas depois pensei com meus botões e achei aquilo um grande preconceito. Questionei arrogantemente e ela afirmou ser “Procedimento da casa”, e logo lamentou-se falsamente. Desliguei o carro, saí dando uma bela porrada na porta (essa parte foi cinematográfica) e mandei chamar o gerente. Quando o sujeito chegou, já cheguei discretamente gritando: “Por que a porra da casa quer me cobrar adiantado? Nem quando eu entrei com dois casais foi assim!”. O gerente me pediu que tivesse calma e me chamou pra conversar no canto. Questionei: “ – Ô meu gerente! Isso é igual self-service... Primeiro a gente come, depois a gente paga... Se eu quisesse pagar e comer eu iria na terma. To certo meu caro!?” O gerente embaraçado, me disse que tinha toda a razão, mas que era procedimento da casa. Parecia atendente de telemarketing. Só faltava falar no gerúndio. Tive um lapso de classe social e puxei minha carteira como se fosse uma pistola 380:
“ - Você ta duvidando que eu tenho dinheiro? Olha aqui ó! Escolhe como eu quero te pagar!”
Fiz um leque em minhas mãos, como um jogador de poker profissional. Nele estavam meus trunfos: Dois Mastercard’s, sendo um estourado e um adicional. Um cartão de débito com CC sem fundos. Meu ticket de alimentação que só aceita comer coisas em mercados, Meu Riocard, Meu cartão da Unimed e por fim sem desmerecê-lo, meu calendário do Flamengo! (O mais bonito da jogada, quase um Royal Straight Flush). Fiz isso tão rápido que antes que o gerente pudesse ver minhas cartas, minha carteira já estava no bolso. Mas pra ele pareceu um baralho de American Express. (Se ainda assim duvidasse, meu carnê das Casas Bahia tava no porta-luvas, pronto pra virar um talão de cheques do Unibanco Uniclass.). Puxei meu malote de nota de R$2,00 do bolso e folheei na cara dele, virando e desvirando. Afinal, Tartaruga parece bastante com a Garoupa da nota de R$100. Ele coçou a cabeça e disse que ia abrir uma exceção. Se desculpou, e saiu andando. Gritei:
“ – Onde é que você ta indo? Pode ir chamando faxineiro, garçom, camareira, cozinheiro e o senhor também! Agora tem que empurrar meu carro porque essa porra só pega no tranco!

sábado, 13 de junho de 2009

Todo mundo é parecido quando sente dor

Fazia meses que não assistia TV, aliás, desde o desmame da infância, nunca mais senti saudades dela. Semana passada, resolvi fazer as pazes com o controle remoto e liguei a dita cuja. Logo, fui surpreendido por um plantão de um tele-jornal sobre a queda do avião da Airfrance (que Deus o tenha). A matéria estava focada na dor e sofrimento de amigos e familiares das vítimas, em que o repórter parecia excitado em mostrar as lágrimas do outros bem de perto. A princípio ignorei. “Pessoas morrem a todo canto e a todo instante e ninguém se importa”, pensei. Afinal, nunca gostei do ar de superioridade dos franceses, Mas a cena acabou me chamando a atenção. A expressão daquelas pessoas parecia purificada, era a dor verdadeira, que as desmembram de qualquer classe social, nível cultural, beleza exterior ou mérito nacionalista. Eram apenas seres humanos, como todos deveriam ser a todo instante, esquecendo dessas linhas que nos separam, e mostrando compaixão. Logo, perceberam que estava sendo filmados, secaram rapidamente as lágrimas e esconderam seus olhos atrás de seus D&C’s, Armani’s e etc. Voltaram a ser franceses e eu voltei a ser brasileiro. Desliguei aquele monstro que acabara de me hipnotizar e fui fazer um misto quente, totalmente despreocupado.

sábado, 6 de junho de 2009

O cheiro do pecado

...A bela jovem embarcou no ônibus, apressada e cabisbaixa. Atravessou o corredor rapidamente olhando para os lados, sentando no primeiro lugar que viu e fixou seu olhar ao horizonte ao seu lado. Eu paguei a passagem calmamente e deslizei pelo corredor procurando um lugar a sentar, e por mera coincidência, o único lugar vago era ao lado da jovem. Pedi licença cortesmente e sentei-me reservado. Mas foi impossível não notar a sua presença. Ela trajava uma curta saia branca que revelava facilmente mais da metade de suas pernas. Uma blusa levemente decotada e seus cabelos úmidos ainda escorriam algumas gotas de água que pingavam eu seu ombro como numa chapa quente, gotejavam e pareciam evaporar ao seu calor. Fiquei ali, sem olhá-lha, mas notava que ela tinha um pequeno sorriso aos lábios e olhava para o nada, contemplando seus pensamentos. Foi quando notei um frescor no ar, um cheiro comum, mas que me fugia à memória a sua origem. Fiquei aspirando aquele cheiro por minutos, até me aproximar mais alguns centímetros da bela jovem a fim de aprimorar o olfato e matar minha curiosidade. Varri minhas lembranças mais remotas, incansavelmente até descobrir de onde conhecia aquele cheiro. Tudo foi se clareando vagamente e num estalo a lembrança veio à tona. Já tinha absorvido aquele cheiro por vezes. Olhei para o lado quase sorrindo, olhei-a de cima a baixo e ela pareceu entender. Parecia entender que eu sabia e aprofundou ainda mais seu olhar à janela, parecendo envergonhada. Procurei não incomodar, levantei-me e a deixei sozinha a se deliciar com suas lembranças. A três assentos adiante, estava eu a recordar, agora de minhas próprias lembranças... Inconfundível aquele cheiro de sabonete de motel...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Manual do homem do saco

Depoimento gentilmente cedido por Marco José Souto, mais conhecido como “Zé do bicho”. Não me responsabilizo por suas opiniões aqui publicadas. Sua divulgação tem apenas fim entretecedor.



Se tem algo que possa fazer a mensura mais apurada de um homem de verdade além do coração, esse algo é o saco! Tal órgão é a maior, senão a mais completa ponte de comunicação entre o ego e o coração. Por exemplo, um homem, ao desembarcar de seu carro do ano, em meio a uma festa, com cordões e pulseiras de ouro, fumando um cigarro e atendendo uma chamada ao seu Nextel, tem um orgasmo múltiplo no ego. O ápice é atingido quando ele se vira costas pro veículo e aciona a trava à distância (Que delícia!). Nesse momento seu saco está a ponto de explodir. Seu ego transborda mais que o copo de chopp. O colarinho da camisa social perde feio pro colarinho do chopp.
Quando um desenfreado exibido pára ao seu lado no semáforo te olha excitadamente pela janela, acelerando seu carro 1.0, te chamando pra um racha, você gentilmente mantém os olhos no dele, e fecha o vidro em sua cara movendo só o polegar (O resto do corpo tem que estar estacado), e assim, sai devagar, como um faquir em seu tapete voador. Nesse momento, seria útil ter no banco um “porta-saco”, pois ele cresce tanto a ponto de cair no assoalho.
Na cama, a mulher grita horrores até o fim, louca de prazer. Depois deita em seu peito, rindo como uma criança, e diz que você foi maravilhoso (Opa! Segura o saco que ele pode sair pela janela voando! E vai ser complicado correr na rua com o saco pra cima, afinal nunca deixe o saco ficar mais alto que a razão do pensamento). Você olha pra ela com um sorriso meia boca, ela espera que você diga o mesmo, mas você faz sinal de silêncio com seu próprio dedo na boca dela e sai de costas pro banheiro pra tomar banho sozinho. Carregando seu saco em baixo do braço pra não arrastar no chão...
“Ser homem é muito bom... Mas ser homem... E sacudo, é bom pra caralho...”.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O senhor de suas verdades

Conheço suas omissões. Posso vê-las mesmo sem adentrar em sua alma pela porta da frente, esses olhos baixos como de criança que acabara de mentir. Elas refletem sobre a mesa que junta suas mãos desamparadas, mesmo vendo inversamente, compreendo cada tentativa de se mostrar orgulhosa de si mesma. Mas não me esforço pra virar as costas e olhar pra trás e vê-la, perdida em seus pensamentos, em que acabara de ouvir meia-dúzia de suas verdades. Daquilo que renega, mas que deseja e te faz livre como como um pássaro que carrega a menta no bico... A verdade em sua boca, deixando seu rastro de felicidade. Mas prefere a se conter em seus valores que na verdade deve aos outros. Que jogam no mesmo time de aparências intocáveis, e razões absolutas, mas que quando são postas ao travesseiro, admirando o teto de seus quartos, veêm o quanto são infelizes a troco de viver em harmonia com a ética da máfia dos seres publicamente sociais. E assim perdem o que a vida tem de melhor, e enterram consigo em seus jazigos, seus valores conquistados com mentiras que apodrecem mais rápido que seus corpos na terra mais fria que seu coração, quando se negou a me amar como te amei.

sábado, 25 de abril de 2009

O que se espera da vida...

Se vê pessoas que não encontram em si mesmas o propósito de viver. Parecem estar num campo de concentração esperando as ordens de um soldado dominante. Acabam vivendo uma vida passiva, esperando os dias acrescentarem os acontecimentos. E se perguntam constantemente, mais parecendo um lamento a viver, (Como se fosse uma terrível obrigação) o que esperar da vida... A resposta é simples: Não esperamos nada. Simplemente, a vida nos espera. Caímos no mundo como anjos, nus, em branco, prontos a sermos lapidados. A vida nos espera, e nos oferece de mãos abertas tudo de mais maravilhoso que aqui habita. Vale de cada ser, cumprir o seu personagem na natureza a fim de fazer a grande engrenagem girar como se deve. E as respostas pra todas as perguntas que o impedem de estar bem consigo mesmo, habita em você mesmo. Em sua grande maioria, buscamos respostas em outras pessoas pra cobrir a verdade que nos pesa o estômago, que não queremos aceitar. Seria mais fácil se tivessemos um fígado no cérebro, mas enquanto não temos, use um pouco de seus olhos, e tente adentrar a um espelho e ver o quanto é maravilhoso e detalhista, o reflexo de si mesmo. E procure ser verdadeiro, assim como seu reflexo te sorri, e te entristece na mesma intensidade. O que fizer pra si mesmo, refletirá mesmo quando não tiver um espelho em mãos.

Fecha aspas....

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O amor cego

Estava sentado à beira da rua, já quase deserta no fim da noite de páscoa, esperando o coletivo com a paciência usual em meus pensamentos, quando veio se desvencilhando em meios aos obstáculos da calçada, um casal de deficientes visuais. Cada um guiava às escuras os passos do outro. Pareciam ter olhos que eu não conseguia ver, mesmo com minha mente sã e visão sadia. Pareciam estar em paz, despreocupados com as horas ou onde estavam. Pararam no ponto e ficaram as cegas com as cabeças voltadas para o nada, num horizonte vazio, de luzes onde as pessoas provavelmente jantavam reunidas as suas famílias. Quando a mulher, tateou a sua frente, o rosto de seu companheiro e parecia um oleiro preparando sua obra. Sentia cada linha do seu rosto e ambos sorriram pra si mesmos, e assim começaram a se beijar longamente. Fiquei ali parado, admirando aquela troca cega de carinhos, em que pareciam tão verdadeiros consigo mesmos. A medida em que se beijavam, um amor maior parecia devorar-lhes, um amor diferente, um tanto puro, mais até sensual que o amor usual. Então percebi, que tinha a minha frente a resposta pra todas as perguntas sobre o fim de vários amores: A vaidade de ambas as partes. Ali se amavam cegamente, onde prevalece somente o que emerge da mais profundeza da alma. Um lugar talvez não conhecido por muitos. Invejei de forma branca aquela cena, suas maiores desgraças, eram suas maiores dádivas. Um amor cego e puro os tomava, e nada mais importava, nem a minha presença, nem a noite que se extinguia, nem os carros que passavam, nem tão pouco se não viam qual ônibus iriam embarcar. Só o amor... Tomei meu coletivo, sem querer saber o destino daquele casal dali pra frente, pois já haviam me concebido uma resposta a qual buscava há tempos, sem mesmo saberem que o teriam feito. Adormeci em paz a caminho do trabalho.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A arte de recomeçar

Foi como uma força que te corta toda a libido. Te toma em tênue nostalgia. O sofá da sala parece te engolir, e afaga seus cabelos com uma língua fria e áspera. E assim, você se entrega. Deixa a barba por fazer, veste as mesmas vestes quando toma um banho quente, e fica ali, horas a pensar. Se não fosse a beleza da vida, até pensava em se matar.
Então se vê numa vida linear, pronto a afirmar que é o fim, que acaba assim, num estalar de dedos.
Mas aí, a coisa muda. Aparecem coisas belas, que dão pulos aos seus pés (belas palavras Fabiana), músicas aos seus ouvidos, que te tomam como um banho frio num fluxo contínuo, como um menstruação de idéias férteis. Que te motivam como se tivesse um filho, pronto a nascer de sua cabeça. Agora iluminada pela maravilhosa necessidade de recomeçar.

Já desisti por um tempo, mas o tempo não me deixa ir.

...Fecha aspas