quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Você vai voltar?

A noite devorava cada canto do beco. Algumas caixas de papelão empilhadas imitavam arranha-céus. Um feixe de luz oscilava por debaixo de uma porta surrada, marcada, provavelmente, pelas entradas e saídas de carrinhos de descarga. Foi ali que ele, amedrontado, tateando a gélida parede, inalou um longínquo odor de queijo. Seu coração palpitava tão forte que podia ouví-lo, grave e intermitente. Tomou coragem e seguiu em frente. Ao ultrapassar a porta, a luz explodiu em seus olhos como que um nascer do sol. Sua respiração parecia ter vida própria; sem controle. Agora o cheiro estava mais intenso e o conduzia com um leve torpor. Desvencilhava-se por entre gigantes de aço, passo a passo, hesitante, até que estacou diante da fonte que emanava a extinção de sua fome: um generoso pedaço de queijo nas entranhas de um corpo estranho de metal. Seus olhos percorreram aquele objeto inerte, que não esboçara reação alguma ao seu primeiro toque. Aquele cheiro convidativo tomou suas forças e o fez abrir a boca, encharcada de saliva, sedenta. Estava a menos de um centímetro, sentia o triunfo, o fim do sofrimento lentamente se aproximando, quando de repente, em menos de um centésimo, um estampido subtraiu seus cinco sentidos instantaneamente. Sentia seu pescoço ser dilacerado. Seus olhos embebidos de sangue concediam uma visão turva do queijo à sua frente, inalcançável. Já não podia distinguir o que era a dor e o que era dormência. Seu corpo foi tomado por inércia e a única coisa que restou foi uma distante lembrança de como estariam seus cinco filhotes recém-nascidos no ninho. Fora sua primeira e última ratoeira.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O preço do troco

Almeida fumava um cigarro sentado na sacada da varanda. Enrolava um tufo de cabelos distraidamente, olhando para a "incandescência" de seu Marlboro. No momento comparava a efemeridade de suas ambições com a fumaça que gingava sedutora por entre os dedos. Patricia Silva respirou fundo e se virou na cama no quarto ao lado. Almeida recostou-se na janela e ficou a admirar o sono profundo da mulher. As linhas de seu corpo já não pareciam tão interessantes. Seu cheiro impregnado no pescoço de Almeida chegava a incomodar; a sufocar a singularidade. Ele ainda tinha o gosto dos fluídos da moça por toda a língua: era cítrico e o fazia salivar até cuspir. Agora, Patrícia dormia de boca aberta. Dentro de instantes, estaria babando no travesseiro. Inconsciente, coçou sua perna, marcando um vergão que disputava espaço com o branco de sua pele. Fora sua primeira vez com ela. Parecia ser a sétima. Estava farto. Patrícia parecia bem mais sensual na foto do Orkut. Almeida deu um último trago e descartou seu cigarro do décimo segundo andar. Lá em baixo, distante de seus olhos, a guimba parecia mais acesa que enquanto em suas mãos.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Âncora sexual

Foram meses de investimento! Juan havia deixado até seu bigode crescer ao saber que ela assim gostava. Periciou seu perfil no Facebook em busca de evidências. Descobriu seus gostos, suas preferências, montou um mosaico no seu quarto: fotos penduradas, anotações, fragrâncias de perfumes fixadas em guardanapos. Um trabalho e tanto! E agora estava ela ali, deitada em sua cama, com o dedo indicador na boca e outra mão acariciando a barriga. Cima a baixo...
Juan dedicou sua vida àquela noite. Tudo parecia perfeito: a iluminação à velas, a música ambiente, a temperatura do quarto. Ele havia até deixado o banheiro se encher de vapor da água do chuveiro e grafou no espelho: "te espero na cama..." Escolhera sua melhor cueca, passara hidratante em seu abdômen e raspara o pubis até parecer um menino de cinco anos. O conquistador apagou a luz de vez fazendo com que as velas dessem um tom alaranjado à silhueta da moça na cama, a qual abriu as pernas e o abraçou como um casulo. O prazer era infindável... Tinha tudo pra dar certo. Juan beijou levemente o pescoço da mulher, passando em seguida para o seu busto. Mordiscou sua pele e a alça de sua blusa, arranco-a como um cão tomando seu filhote pelo lombo; preciso e delicado. As aréolas de seus seios estava sólidas; ardia por prazer. Depois de beijar toda a barriga, Juan deitou-se sobre a moça, rosto com rosto, e começou a desabotuar a calça que o deixaria a um passo de seu sonho. Olhos nos olhos, o rapaz puxou o que restava de roupa em sua musa e atirou para o lado. Aquele vulto tomou sua atenção. Por um momento não acreditou em seus olhos e tentou dar continuidade ao seu ritual, mas sua visão periférica não o deixava em paz. Olhou novamente e a essa altura sua mente já estava encharcada de perturbação. Percebeu que por conta disso mal tinha uma ereção. A mulher o desejava! Arranhava suas costas, insaciável. Porém Juan estava em outra dimensão. Só tinha olhos para aquilo que acabara de lançar ao chão. Tentou se lembrar de todos os filmes pornôs que assistira na vida: anal, animal, tântrico, necrófilo! NADA! Sua libido estava sendo torturada no tapete... ao lado daquela horrível calcinha bege da Demillus.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A infidelidade do romance policial

A viatura policial do 31º batalhão chegou com discrição no estacionamento do Mc Donald's, de onde Borges desceu arrastando a bandoleira de seu Colt M4 no chão, preguiçosamente. Logo, deu um último trago em seu cigarro e se dirigiu a Farias, ainda dentro do veículo:

" - Vai 'querê' um Big Mac, Farias?"
" - Não, Sargento. 'brigado'."

Borges empurrou a porta do estabelecimento com o bico do fuzil e sumiu da vista do soldado.
Parecia uma noite tranquila. Nenhuma ocorrência até então, só se ouvia o som estacado de música eletrônica ao longe, num bar qualquer, onde a burguesia refogava os valores mundanos.

Farias retirou sua boina e secou o suor de sua cabeça. A brisa da orla não tocava a Avenida das Américas. De repente uma luz sólida tomou o interior da viatura e tudo à sua volta. Um Opala preto, de vidros fumês, parou no auto-posto ao lado e desligou-se o motor. O soldado destravou seu fuzil e saiu da viatura lentamente, recostando-se na fria lataria, observando o suspeito com olhar aguçado. Uma fresta de janela se abriu no funesto carro e Farias pode contar rapidamente quatro cabeças ocultas pela escuridão. Farias moveu seu dedo indicador de forma milimétrica até o gatilho e em passos curtos, alinhou sua silhueta atrás de um poste. Dali podia-se ver Borges de costas, no interior da lanchonete de papo com a atendente sorridente, que provavelmente deliciava-se com as histórias sagazes do Sargento.
O Soldado sentiu o que em anos de serviço não vivenciava: a sensação de vida por um fio. O Opala deu partida no robusto motor 4.1 e uma névoa branca tomou suas linhas uniformes. Em seguida arrancou bruscamente fazendo com que os pneus traseiros emitissem um choro lancinante ecoado nos lotes lindeiros da Avenida. Farias não pensou duas vezes antes de saltar por cima do capout da viatura, caindo do outro lado já em posição de assalto. Ao cortar o ângulo de combate, o soldado pôde ver os bicos de dois fuzis apontados em sua direção. Foi nesse momento em que Farias contou seus supostos últimos segundos de vida e por algum motivo desconhecido se deixou levar, recolhendo seu dedo do gatilho, seguido pela mão e em seguida, fazendo um sinal da cruz. Ele tentou fechar os olhos, mas um sentimento de medo mesclado com uma tácita coragem não permitira. Através de luzes borradas, Farias viu o carro tomar distância, ouviu as quatro marchas sendo engatadas gradualmente até que o som maquinante destoasse em seus ouvidos. O alívio do soldado durou apenas dois segundos até que se pôs de pé - com as pernas ainda trêmulas - e correu até a Lanchonete. Chutou a porta com veemência e bradou:

" - SARGENTO! Veículo suspeito em fuga, quatro ou cinco indivíduos possivelmente armados!"

Borges olhou-o boquiaberto, com um pedaço de alface nos dentes.

" - Em fuga de que, soldado?"
" - (...)"
" - Eles pararam no posto e saíram em retirada sentido Barra!"
" - (...) E daí?
" - (...) E daí nada, Sargento."

Todas as pessoas do recinto olhavam, paralisadas. O picles do hamburguer de Borges caiu no chão.

" - Num fode, Farias. Deixa eu comer meu Big Mac em paz, porra."

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Felicidade reversa

Duda tinha seu lanche confiscado todo santo dia na escola. Era gordinho, de cabelos cheios e andava de pernas abertas por conta de suas assaduras. Marreta, um garoto da sétima série, corria atrás de Duda e alcançava-o facilmente, o segurava pelos cabelos e o enchia de mocas, até que seu choro o fazia levar as mãos ao rosto e soltava seu lanche, o qual Marreta pegava e saía correndo. Duda não mais suportava tamanha humilhação e resolveu dar um basta. No dia seguinte, quando Marreta veio em sua direção, Duda jogou seu lanche no chão e o pisoteou. O brutamontes não acreditou no que viu, ainda mais no momento em que Duda levantou seu indicador gordinho em direção a Marreta e proferiu palavras trêmulas:
" - Se eu não como, você também não vai"

Marreta, enfurecido, aproximou-se do menino até ficar cara a cara, com os dentes acirrados, prometendo:
" - Meio dia e meio, no parquinho! Vou arrebentar sua cara" - Saindo em seguida.

Duda sentiu suas pernas fraquejarem, correu para o terceiro andar e trancou-se no banheiro. Sentado na privada, puxava seus próprios cabelos, chorava e tampou os seus ouvidos por horas, confrontando os demônios em sua mente . Nunca brigara em sua vida. Sentia um frio na barriga só de imaginar a imagem de Marreta armando um cruzado de direita em sua face. No ápice de sua lamúria, resolveu orar pra Deus. Pediu que Ele intervisse de qualquer forma para que salvasse seu dia. Expôs suas qualidades, contou quando salvara um cachorrinho abandonado, quando fizera curativo na asa de um pardal ferido e quando ajudara uma velhinha a atravessar a rua. Por fim, secou suas lágrimas e olhou seu relógio: Meio-dia e quinze. Fez o sinal da cruz e saiu para o corredor. Ao chegar no hall do terceiro andar, seu corpo congelou pro inteiro. Estavam estiradas dezenas de corpos de alunos no chão, todos baleados. Alguns ainda agonizavam. Porém, diante da escada, jazia um corpo que provocou uma tremenda serenidade em Duda: o de Marreta, com dois tiros no peito. Uma figura robusta e mal-humorada se projetou diante de Duda com dois revólveres em mãos, Duda permanecia perplexo. Era Wellington Menezes. Ele guardou uma de suas armas, acariciou os cabelos de Duda com um sentimento fraternal e subiu as escadas.
Duda agradeceu a Deus, amarrou seu cadarço e desceu para o segundo andar. Ao passar por Marreta, deu uma bicuda em sua canela e seguiu cantarolando.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Doce e imunda inocência

Sarinha catou as moedas em seu bolsinho, contou-as uma a uma e despejou sobre a mão áspera de sr. Haroldo. Ficou por um minuto decidindo se levaria o pirulito de cereja ou de uva até que escolheu o primeiro, desembrulhou-o e o enfiou na boca olhando de soslaio para Sr. Haroldo e sorrindo em seguida. Ao sair, empinou sua pequena bunda e ainda olhou pra trás dando um novo sorriso, que inspirava algo entre inocência e subjetiva feminilidade de uma puta. Sr. Haroldo, desconcertado, ergueu a mão vagarosamente simulando um “tchau”, boquiaberto com a sensualidade daquela menina que aparentava ter seus oito ou nove anos. Sr. Haroldo começou a suar frio. Sentia-se culpado, mas o calor que subira em suas calças o fez fechar as portas do comércio e correr para o banheiro. E lá foi onde se masturbou tristemente com a imagem da menina lambendo seu pirulito.


“ – Por que você tem que ser assim com essa idade meninaaaaaaaa!!!??? Arrrrgh!!!


(Ejaculação)

sábado, 19 de março de 2011

Quem tem tem medo...

Santana estava aguardando seu nome ser clamado no imundo corredor do Hospital Rocha Faria. Suas hemorróidas corroiam seu ânus feito beliscões de madrasta e se recusara a sentar nas cadeiras da sala de espera. Sua testa suava frio e a cada fisgada que sentia, levava as mãos às nádegas discretamente, como que amansando um cavalo bravo. Santana sentia-se injustiçado com a vida e pensava com seus botões:

" - Nunca dei o rabo, por que eu tô passando por isso, meu Deus?"
Foi quando um médico com seus vinte e poucos anos bradou na porta do consultório 6 com uma prancheta nas mãos:
" - Alejandro!!!"

Santana desencostou-se da parede e caminhou mancando até o consultório, sentou-se com grande dificuldade e cruzou as mãos, olhando para seus dedos polegares girando em volta uns dos outros. Logo, o médico pigarreou e indagou:
" - E então, o que aconteceu, Alejandro?"

Santana mirou o crachá do médico e pode ler "Pablo Siqueira". Levantou as sombrancelhas, projetou seu discurso rapidamente e iniciou:

" - Então, Pablo. Esse final de..."
" - É "DOUTOR PABLO"
" - Como?"
" - É Doutor...Pablo!"

Santana não acreditava nos seus ouvidos. Entortou a cabeça de leve, acirrou os olhos e refletiu sobre sua vida: Já havia passado por maus bocados. Não terminou seus estudos pois teve de trabalhar pra ajudar com o orçamento em casa, trabalhou nos empregos mais imundos, fora um genuíno heterossexual até o dia presente e estava ali, levando esporro de um moleque que pensa que entende de cu. Mal sabia ele que Santana conhecia do riscado, afinal, era frequentador assíduo de todos os puteiros da zona oeste.
Santana assentiu ironicamente, sacou sua pistola trezentos e oitenta e pôs sobre a mesa. Doutor Pablo arregalou seus olhos tanto que pareciam ter hemorróidas, se segurando na cadeira.
Foi então que Santana deu início ao discurso mais emocionante de sua vida profissional:

" - Olha aqui o seu......MOLEQUE.....!!! DOUTOR Pablo né!? Ok... Por acaso você chama o faxineiro de "Faxineiro João!? Por acaso você chama o lixeiro de "lixeiro Zé!?" (Doutor Pablo negava imediatamente). Então daqui pra frente você vai me chamar de "MILICIANO SANTANA". E se você esquecer, eu vou pegar essa arma E DAR UM TIRO NO SEU CU!!! Pra você ver o quanto é bom tá sofrendo por uma coisa que você não deu e ainda ter que ouvir merdinha de um CUZÃO como VOCÊ, que faz uma MERDA de uma faculdade na Estácio e vem pra cá pensando que é malandro. Então agora você vai me ouvir e vai consertar as vinte e uma pregas do meu rabo! E não quero escutar um pio! Ouviu bem!?? OUVIU BEM SEU FILHO 'DUMA' PUTA!?"

Doutor Pablo acordou de um coma induzido e assentiu calado, e, agora, seus dedos mal tinham sangue circulando, pois ele apertava a cadeira que sustentava sua bunda com tanta força que a essa hora já devia ter desenvolvido suas próprias hemorróidas.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Grota funda

Firmino estava sedento por diversão. Fazia 3 meses que não saia de casa pra se entreter. Penteou seu cabelo de lado, espirrou seu Très Marchand na sovaqueira, fivelou sua pochete e saiu de cabeça erguida, orgulhoso de sua auto-estima, hoje inflamada. Sentou-se no boteco do Renato, pediu uma Glacial e ficou a admirar a rua, mas a nostalgia por seu divórcio o tomou por inteiro. Sentiu-se carente e sozinho até o momento em que uma dama rompeu o silêncio de sua alma:

" - Posso tomar um copo contigo?"

Firmino não acreditou em seus ouvidos. Embaraçado, puxou uma cadeira com as mãos trêmulas e reverenciou sua nova companhia. Ela se esparramou, acendeu um Derby e fitou Firmino cima a baixo.
" - E aí, qualé a boa?"

Firmino quase conteve sua extasia, mas tomou um gole e resolveu ir direto ao ponto:
" - Você chupa?"
Ela arregalou seus olhos castanhos, estaria surpresa, senão fosse pelo seu longo currículo. Pediu:

" - Me dá tua mão"

Firmino estendeu sua mão, ainda trêmula. Ela a segurou com a delicadeza de uma enfermeira separou seu dedo maior e enfiou goela adentro. Ao tirar, deu uma longa chupada na ponta. Piscou lentamente e sorriu.
Firmino pediu a conta.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

No Complexo do Alemão...

Era o primeiro sábado de operação policial. Os tiros crivavam os tijolos da parede da cozinha. Lá fora, gritos de desespero ecoavam pelos becos da favela. Cachorros nem se atreviam a latir. O cenário assistido pela fresta da janela era de guerra. Pedro Lucas olhava para o relógio de parede da sala, apreensivo. Eram 13:46, faltava pouco. Mas aqueles minutos pareciam horas. Ele ouvia as rajadas de 7-meia-2 quase que lentamente. Cada disparo parecia um segundo interminável. De repente, Pedro Lucas ouviu um barulho um tanto desconhecido, mecânico e uniforme, assemelhando-se à moenda de sr. Severino que, a essa hora, com certeza, não estaria vendendo pastéis e caldo de cana no pé do morro, visto que o Complexo do Alemão parecia Stalingrado em 19 de Agosto de 1942. Pedro Lucas deu uma outra olhada no relógio: 13:56. Apenas quatro minutos. Seu dedo indicador coçava de vontade de pressionar o botão. O barulho ganhou projeção maior e, agora, Pedro podia sentir que estava ao lado de sua casa. Tomou coragem, inflou o peito com ar e abriu a janela pra ver o que era: um blindado do exército subia sua rua, imponente, à todo vapor. Pedro Lucas não acreditava no que seus olhos viam. Um tanque de guerra, ali?
O veículo girou sua ponto-cinquenta, erguendo-a em direção a casa de Pedro, que ficou em choque ao constar que a ponta da arma era tão comprida que podia alcançar os fios da instalação telefônica de sua residência. O soldado que manejava a arma notou o espanto de Pedro Lucas e mandou que seguissem em frente. Foi aí que aconteceu o que Pedro mais temia - era o fim. Seu mundo caiu por terra: O blindado arrebentou o fio do telefone. Eram 14:00 em ponto. Horário da tarifação única de sua internet discada. Era o início de um fim de semana sem Orkut, MSN e Twitter. Pedro Lucas desejou a morte.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

É coletivo...

O sujeito veio oscilante, arrastando a perna que lhe restara com o auxílio de um pedaço de madeira envolvido com trapos encardidos. Os vendedores ambulantes se desvencilhavam dele como de um cão de rua. Esbarravam as mercadorias nos seus finos braços atrelados aos ferros do vagão. O trem em movimento sagaz desconcertava seus passos a cada solavanco. E ele persistia em caminhar. Passo a passo, singular. Seus ralos cabelos caiam sobre a testa suada, acima de um rosto cadavérico. Sua pele se apegava aos ossos. Tinha um olhar distante, quase entorpecido, que já não distinguia a extensão a ser percorrida. Espalhou pelo vagão seu odor de fezes e urina. Uma senhora não disfarçou ao levar as mãos ao nariz enquanto o sujeito se arrastava pedindo esmolas. Uma onda de compaixão tomou todos os passageiros presentes. Um senhor, com sua camisa furada e seus sapatos de solas descoladas, tateou o fundo de seu bolso até extrair algumas moedas e depositá-las nas mãos do miserável. Uma jovem mulher abriu sua pequena bolsa de moedas e virou-a de ponta cabeça, doando todo seu conteúdo. Idosos abriam seus embrulhos plásticos envoltos por elásticos e retiravam notas de dois Reais, outros, até cinco. Pessoas se levantavam a todo instante e davam um pouco de si, materializados no imundo dinheiro. Aquela cena me tomou de um orgulho imensurável. Vi pessoas que não têm o que merecem ter, doarem o pouco que tinham em mãos, como se fosse um pedaço de seus corpos. Reconstruindo, assim, a perna daquele indivíduo. O ajudando a caminhar. Motivando-o a seguir em frente. Mesmo com suas desgraças, com um futuro previamente condenado, ele estava ali. O trem balançava a cada curva, ele se desequilibrava, mas não caía. Talvez aqueles tristes olhares sobre seu corpo imundo, o mantinham de pé. De uma compaixão que nunca, um nobre, em toda a sua riqueza, irá experimentar um dia. Era o amor mais puro do mundo, sobre uma figura fétida, miserável, que mal media seus passos diante do longo caminho de oito vagões que o esperavam pela frente.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pipoca é a alma do negócio

O clima escaldante fazia com que minha testa gotejasse suor feito água. Uma visão turva sobre o cenário férreo na estação de São Francisco Xavier, na esperança de que o Santa Cruz aparecesse como uma miragem nos contornos do Maracanã. Em meio a faces fadigadas de trabalhadores que olhavam para o mesmo horizonte evaporando, avistei um vendedor ambulante saltando plataforma abaixo e cruzando a linha com um enorme fardo de pipocas no ombro. Atrás dele, se projetava um vagão vindo em alta velocidade, buzinando insistentemente. Um senhor ao meu lado fumava um cigarro, despreocupado observando o vendedor, agora escalando a plataforma seguinte, onde parou de pé sem o menor sinal de exaustão. Logo, o trem de Japeri passou soando a buzina como um triste choro. O senhor deu um útimo trago e atirou sua guimba de cigarro sobre a linha. Perguntou ao vendedor, sem compromisso:

" - Nenhum de vocês já não morreu atravessando essa linha?"

O vendedor tirou seu boné, passou a mão sobre os ralos cabelos, fitanto o senhor.

" - Meu 'sinhô', eu tenho mais de vinte 'ano' de pista aqui. Sô de bobeira não..." e saiu gritando:
" - Pipoca macia e crocante é um reaaaal!"

O senhor assentiu e ficou pensativo olhando o vendedor se distanciando. Depois se virou para mim e disse com a maior segurança do mundo:

" - Vinte anos!? P#t% que o pariu... Essa p*%ra deve dar dinheiro mesmo..."

Eu por fim, poderia ter uma visão antropológica e refletir sobre a vida daquele indivíduo trabalhador sem escolhas, talvez. Mas o calor me ardia as têmporas. Preferi concordar falsamente e rir comigo mesmo.
A vida é uma Comédia Dell'Arte - pensei.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A que se vive, a que se come

Sr. Matarazo almoçava à negócios em sua majestosa mansão em Angra dos Reis, com Charles Craine, seu futuro sócio. Desculpava-se com Charles pelas obras em andamento nos cômodos vizinhos. Estava sendo instalada uma banheira maior de hidromassagem e uma academia particular no andar acima.
Sr. Matarazo, muito cordial, convidara "seu Severino", pedreiro responsável pela obra a almoçar à mesa, em sua companhia e de Sr. Charles, tal qual não apreciou muito a ideia de dividir o mesmo ambiente com um peão, segundo ele, sem escrúpulos e um tanto indelicado.
Seu Severino chegou humildemente, retirou seu boné de propaganda política e sentou-se a mesa, ainda tímido. Sr. Matarazo mandou que ficasse à vontade e que se servisse, logo abrindo um diálogo enquanto servia-se de ostras
à portuguesa:


" - Ah! O que mais na vida combina tão bem quanto ostras e um bom vinho?"
" - Alheira de mirandela" - Sugeriu Sr. Charles.
" - Muito bem lembrado, Charles, muito bem lembrado.
" - Uma Dodge Ram e um dia de chuva no campo" - Retrucou Sr, Matarazo

Seu Severino ouvia cabisbaixo sem intrometer-se no assunto, mastigando calmamente.

" - Um puro sangue e uma sela Ruiz Diaz" - Retomou Sr. Charles
" - Meu taco de golf e minha notável habilidade. Modéstia a parte" - Disse Sr. Matarazo sorrindo e em seguida, completando:
" - E você, Severino? Dê uma sugestão tão prazeirosa quanto as nossas!


Seu Severino palitou os dentes, pensou por poucos segundos e falou com toda a certeza do mundo:

" - Um banho quente e uma 'mulé' safada".

Os dois entreolharam-se espantosamente e seu Severino permaneceu impassível, limpando seu molar, agora com dois dedos dentro da boca.
Charles voltou a atenção à lagosta em seu prato e Sr. Matarazo refletia o pensamento de seu Severino.

" - Você é um sujeito muito esperto, seu Severino... Muito esperto!"

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Água e vinho

Você recostava a cabeça ao meu peito,
Sorria das bobagens que dizia
Bebia de meu copo
Arrotava alegria

Não media palavras ao dizer o quanto era especial
Sentia-se bem ao sentir-se mal
Fazia meu dia cabal

Ríamos dos outros como quem não faz parte desse mundo
Éramos um do outro como se não houvesse outros
Dava ouvidos aos meus sonhos imundos
Deu música aos meus ouvidos insossos

Você tomou minha distração e fez dela emoção.
Me fez por noites fazer planos pro futuro
Você se deu como quem quer meus filhos
Se disse minha estando sozinha

Mas não contente fez seus dias vazios
E assim se perdeu,
se esvaiu
Nos conduziu ao ponto de partida de qualquer vida vivida
Onde a mesmice de sempre acalenta a nostalgia

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Como estancar a inocência

Eu andava pela rua quando dois meninos com pouco mais de sete anos passaram por mim correndo, com suas pipas, latas de linha, ceróis e rabiolas. Com todo aquele gás de criança, correndo como se o mundo estivesse acabando. Recordei-me de minha infância.
Quando estancar uma pipa era uma perda irreparável
Quando até tomar banho era diversão, fazer moicano com espuma do xampu.
Quando andar no meio-fio era um grande desafio
Quando subia na mangueira e me sentia o rei do mundo
Quando corria dos marimbondos que moravam na mangueira
Quando sentava no chão pra tirar o espinho do pé
Quando espancava as bananeiras fingindo ser ninja
Quando jogava bola com o amigo imaginário e podia sempre ganhar
Quando abandonava o amigo imaginário - tristemente - pra ir a casa da tia comer o macarrão que só ela sabia fazer

Vi que a essência de ser criança, nunca muda. E fiquei ali, sorrindo pra mim mesmo vendo os dois meninos "dibicando" suas pipas, me vendo ainda com o dedo pintado de mercúrio, cheio de cortes de linha, correndo no bar pra comprar um "dezinho". De repente, o menino abriu um cordial diálogo com seu amiguinho que me deixou boquiaberto:

" - Vou te arrastar!"
" - Vai arrastar é o ca%#lho! Se tu arrastar eu vou estourar tua cara!"
" - Duvido! Vem então, seu v#&do!"
" - Num me chama de v#&do não! Seu arrombado!"
" - Vai tomar no seu c*!"
(Silêncio de dez segundos)
" - Ca%#lho! Ali Juninho, cheia de linha!"

E os dois saíram correndo como dois bons amigos atrás da pipa voada.

Naquele momento minha admiração estancou, cheia de linha. E minhas lembranças voaram ao vento. De como tive uma infância pura, cheia de fantasias, tão inocente quanto a bananeira que apanhava de mim, sem saber o porquê.

domingo, 6 de junho de 2010

Onthophagus gazella

Jair Pestana debruçou-se sobre o balcão do bar, afrouxando o colarinho de sua camisa social salmão. Pediu um pingado e um pão na chapa. O sol emergia por entre os arranha-céus e Jair lançou um olhar ao relógio da Central do Brasil, que marcava oito e vinte e cinco. Sua entrevista de emprego estava marcada para às nove horas e queria estar relaxado e saciado. Comeu o pão servido e bebericou seu pingado até o último gole, que desceu redondamente. Logo, ajeitou seu cabelo ao sujo espelho do banheiro do bar e partiu rumo ao endereço anotado no papel amassado em suas mãos. Lá chegando, foi solicitado que aguardasse em uma sala já arrumada, com cadeiras formando um círculo, onde já haviam mais de dez candidatos. Seguro, Jair sentou-se e cruzou as pernas aguardando o início da entrevista. Sentiu um reboliço intermitente em sua barriga o fazendo contrair as nádegas na cadeira de espuma injetada. Os candidatos o olharam curiosamente, mas Jair não se abalou e assim permaneceu até o início da entrevista. Uma jovem moça se apresentou aos candidatos e começou a fazer perguntas um a um. À essa altura, Jair não mais conseguia se concentrar, suava feito um porco, sentia calafrios, com os pelos do braço arrepiados.

" - Jair Pestana? Jair Pestana?! Senhor?
Jair estava estrábico pensando em toda a merda que estava pro vir.

" - Sim, sou eu."
" - O senhor quer que eu ligue o ar-condicionado? O senhor está suando bastante"
"- Não, obrigado, pode prosseguir."

As Axilas de Jair formaram duas pizzas tamanho família em sua camisa social.
Agora, ele emitia curtas flatulências abafadas na cadeira, pensando " - Ô pingado desgraçado..."

" - Então o senhor trabalhou quatro anos como auxiliar de serviços gerais?"
" - Isso... Uma empresa de manutenção e limpeza de banheiros químicos."

"Banheiros"... A palavra que saiu da boca de Jair e que o ensurdeceu por um instante até notar que a moça lia seu currículo, completando no final:

" - Qual o animal que o senhor mais se identifica?"
" - Hein!? É... Animal... Deixa eu ver...

A barriga de Jair se contorceu e ele sentiu a temperatura de seu reto aumentar de forma repentina, até que involuntariamente, uma suposta flatulência saíra acompanhada. Inundando a cueca de Jair e empestando toda a sala com aquele odor, que o intestino alquimista transformara o pingado em merda diluída.

" -
Onthophagus gazella!" - Exclamou Jair.
" - Desculpe!?" - Falou a jovem moça cobrindo o nariz e tirando os óculos.
" - Vocês de recursos humanos são muito ignorantes mesmo! Perguntam sobre animais e nem sabem seus nomes científicos..."

Jair deixou a sala levando seu currículo e deixando um rastro de altivez e outro de merda.

A assistente, curiosa, horas mais tarde, googleou o dito cujo e viu que se tratava do "besouro rola-bosta", que defeca e leva seus excrementos pra casa. Lugar mesmo onde Jair Pestana estava esfregando suas roupas com sabão de côco. Triste e humilhado.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O prazer descartável

Romero estava por baixo e assistia Alicia cavalgar como uma amazona grega. Entediado, ele pensava em seu processo de divórcio, tão demorado quanto a chegada do orgasmo de sua parceira, que chegado, cravou as unhas em seu peito, provocando profundas marcas. Ela gritava, jogava os cabelos ao ar, mordia os lábios, se deliciando. Romero virou-a e atirou seu corpo pesado sobre a frágil Alicia, dando-lhe fortes investidas, fazendo a jovem emitir algo entre choro e riso eufórico. Até que sentiu seu corpo enfraquecer e foi tomado pelo prazer. Diminuiu seu ritmo até parar completamente, recostando-se a cama. Alicia deitou a cabeça em seu abdômem. Ele olhava seu reflexo no espelho acima, junto a uma bela figura feminina. Aconchegou Alicia em um travesseiro e se levantou, dirigindo-se até a janela do quarto. Acendeu um cigarro e apreciou a lua minguante por entre as venezianas. A cada trago, sentia a noite cair como as cinzas ao chão do Lucky Strike em seus dedos. Romero olhou pra Alicia deitada como uma prostituta, sentiu nojo. Romero olhou pra si mesmo, sentiu orgulho.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Lealdade canina



Os dias que precederam sua morte foram tênues. Meus outros cães pareciam, de alguma maneira, respeitar seu espaço. Como um leito único. Sua pele e pelos se apegavam aos ossos. Negava-se a comer e beber qualquer coisa ofertada. No entanto, inspirava gratidão com uma tentativa de balançar o rabo fracamente. E assim se estendeu por três dias. Na noite anterior, consegui aquecer seu corpo com alguns cobertores e fiz com que bebesse uma dose de leite morno, forçadamente. Ela se deitou tranquila, de olhos fechados.
Na manhã seguinte acordei. Ansioso, fui conferir sua melhora e uma tristeza tomou conta de mim ao ver que ela se encontrava ofegante, dando curtos suspiros e esticando seu corpo, involuntária. Esperançoso, me agachei e acariciei sua barriga levemente. Em seguida, me levantei depressa a fim de pegar um analgésico e um pouco de leite.
Ao sair, senti vontade de olhar pra trás e ao fazê-lo, vi que ela me olhava com tremendo esforço por não conseguir mover a cabeça, virando suas órbitas até o limite. De alguma forma, inspirava gratidão. E o mais chocante foi quando balançou seu rabo rapidamente, como fazia ao me ver chegando em casa. Entendi que aquele gesto era um "muito obrigado".
Inconformado com sua suposta despedida, me ausentei por um minuto. Perdido em meus pensamentos, assistindo o copo de leite girando no microondas, já com o analgésico em mãos. Decorrido esse breve instante, voltei e me deparei com seu corpo inanimado, de olhos ainda serenamente abertos. Ali, sentei. Chorei.

domingo, 18 de abril de 2010

A gota de Devassa

Eu precisava de um tempo até seguir caminho. O calor ardia minhas têmporas e resolvi sentar num bar, abrir uma cerveja e deixar a hora passar. Degustando calmamente, de pernas cruzadas e admirando o colégio em que estudei há anos. Boas lembranças escorriam da memória como as gotas do copo suado em minhas mãos. A primeira mulher da minha vida, o cheiro de comida no refeitório, os intervalos no pátio, os mestres, o som do sinal, que hoje, tanta falta faz. Por um momento me senti adolescente. Algumas estudantes me olhavam curiosamente, cochichavam, davam risinhos abafados. Não obstante, aprimorei minha perspicácia sobre tudo que olhava naquele momento e pra tristeza própria, vi que todos eram vazios. Fumavam sem propósito, por uma falsa elegância, riam de piadas insossas criadas por eles mesmos, as belezas das meninas que ali me admiravam, eram plásticas e rasas. Tinham seus grupos separados por cores. Era uma juventude infeliz e não tinham consciência disso. A melhor época de suas vidas estava ali, se comportavam como falsos adultos e mal o sabiam fazer. Senti pena, senti raiva, senti como se aquele fosse o meu lugar, onde mudaria suas maneiras de pensar. Mas o relógio me tomou a atenção, era hora de voltar à realidade. Tomei o gole que me restava e deixei o copo ali sobre a mesa, vazio como a sua volta. Apenas uma gota ao fundo, exalando o cheiro do que outrora foi bom, como nossos pais disseram que ia ser.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O teor alcoólico de sua amizade...

Era o fim de uma noite quieta. A nostalgia tomava cada canto escuro e urinado das ruas de Campo Grande. Pessoas passavam sem se olharem nos olhos. Tinham pressa. O relógio marcava 23:42 pm. O silêncio de cemitério só era cortado ao passar de um carro ou outro. E em meio aquele vazio, duas figuras indiscretas, costuravam a calçada feito marionetes guiadas por cordas invisíveis. "Mendigos", pensei. Mal-vestidos, descalços e totalmente bêbados, escoravam seus corpos um ao outro, sem qualquer desconfiança, abraçados como crianças.
Aquela breve cena roubou minha atenção. Todos passavam esboçando risos e caçoando, mas eu enxergava algo diferente.

" - Eu te amo pra 'caraio' rapá..."
" - Você...(longa pausa)...É MEU amigo!!!"
" - Não! Eu sou teu IRMÃO!"
" - 'Tamu' junto!"
" - Então 'tamu' junto."
" - Tu num vai sozinho não! Eu 'vô' te 'levá' na porta de casa"
" - Mas eu num tenho casa, porra!"

E ambos escancararam suas bocas com poucos dentes e se entregaram a uma gargalhada interminável, chegando a se sentarem pra não cairem. Pareciam duas crianças. Felizes com o nada que tinham naquele momento. Não importava o torpor, seus mals odores, se eram pobres, descalços, nem tão pouco seus rumos de vida. Ali, reinava a amizade e lealdade verdadeira. Não tão pura quanto o sangue que corria em suas veias, era apenas amizade. Atribuída e retribuída na mesma medida. Coisa que pouco fazemos no nosso dia-a-dia, mesmo sãos, bem vestidos e com um telefone em mãos, não ligamos pra dizermos o quanto amamos alguém que está em nossas vidas todos os dias... Seja seu amigo de copo, de noite ou simplesmente aquele que te arranca um sorriso com um tênue abraço.

sábado, 20 de março de 2010

A maior descoberta do ser humano

A grande caixa foi passada a mim como um filho recém-nascido. "Mais pesado que esperava", pensei. Como uma criança, encarei com muito entusiasmo e rasguei a embalagem vorazmente. Ainda desconfiado, o retirei de seu berço e depositei-o sobre a mesa. Ele reluzia. Senti vontade de aprender mais sobre ele antes de pôr em prática. Mas a ansiedade não permitiu. Conectei-o na tomada e foi como entrar em Matrix. Ele era "O escolhido". Luzes se acenderam, ouvi beeps seguidos e eu tinha ali em minha frente, meu Transformer... Depois de tantos anos de admiração...
Pensei: "Como o ser humano chegou a esse ponto?" Isso é mais genial que uma bomba de elétrons.
Atirei um velho pão de 2 dias atrás, digitei "15" e pressionei "Enter". Ele girou, cantando aquela orquestra espetacular e ao fim, "beepou" como uma bomba relógio, abri a tampa como quem abria a "Porta da Esperança", de Sílvio Santos. E lá estava ele, quente, margarina derretida, brilhando, jovem de novo. Em apenas 15 segundos! Foi o pão mais saboroso que degustei em minha vida. Não contente, aguardei como Natal, o horário do jantar. Esperei a comida esfriar pacientemente, inseri o prato na incubadora, "2:00", foi o ridículo tempo em que meu bife ressuscitou como um boi mediúnico, o arroz perdeu sua oleosidade, e o feijão! Ah o feijão... Se tornou o chocolate de Willy Wonka. Espetacular...

Como contemplo as coisas simples da vida...
Percy Lebaron Spencer, foi o homem que inventou o microondas. Um homem de visão! Que mostrou pro mundo todo que radioatividade a longo prazo, pode conceder uma morte muito prazerosa. Pobre Percy, morreu sem saber que sua engenhoca é um ótimo secador de meias.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Como estuprar a paciência de alguém

...Sentei no banco ao lado do sujeito e mal me aconcheguei, ele se virou e perguntou:
" - Você é evangélico?"
"Fudeu" - Pensei.
Respondi um "não" firmemente e fixei o horizonte à minha frente. Logo, o sujeito me pediu dinheiro sem qualquer explicação e sem ar de compaixão. Neguei, sem qualquer explicação e sem qualquer compaixão.
Não contente, ele tirou uma camisa velha e amarrotada de sua mochila:
" - E se eu te der essa camisa?"
" - Não, amigo. Obrigado."
" - Sabe como é né playboy? Tenho sete filhos pra sustentar. Ontem meu filho mais velho me pediu uma Hornet."
" - Poderia comprar uma laqueadura de trompas pra sua esposa."
" - É aí que tá, eu tenho cinco mulheres, um filho com cada uma e na última eu meti dois..." - Disse com um sorriso orgulhoso.
(Fiz meu cálculo, e conclui que um tenha morrido)
" - Parabéns"
" - Quer um playboy?"
" - O que?"
" - Um filho meu"
" - Não, mas tua mulher eu aceito"
" - Ih qual foi playboy? Quer furar meu olho?"
" - Num fode ô maluco, tá me enchendo o saco, porra!"
" - Ih a lá, playboy cheio de marra..."
" - Ih a lá, fudido cheio de filho... E se tu me chamar de playboy de novo eu te como na porrada!"
" - Já é então, cessou... Cessou..."

(Dois minutos...)

" - Pô, mas não tem como fortalecer nem uma herança?"
" - Maluco, pede a Deus pra teu filho não fazer a mesma merda que tu fez, ficar rico e morrer antes de você, só assim tu vai ter tua herança!"

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Semblante de mulher

Eu atendia duas jovens com pouco mais de 18 anos. Lindas, com seus cabelos escovados, toques de maquilagens rosados, decotes exuberantes. Radiantes de alegria, sorriam à toa, fazendo bobas piadas sobre tudo ao redor. Me distraíram facilmente, até que uma outra figura feminina se aproximou por detrás das meninas, discretamente. Desloquei a visão tirando as jovens de foco, e vi uma senhora com seus trinta e tantos anos, de braços cruzados e seriamente impassível, porém, de alguma forma, inspirava simpatia. Dispensei as meninas rapidamente, e recebi a mulher com um cortês "boa noite". Ela começou a falar e sua voz era madura, medida e cheia de reticências. Me olhava dentro dos olhos com uma segurança intimidadora. E ao me ouvir, parecia avaliar cada palavra comprometendo minha atenção. Atendendo seus pedidos de compra, me afastei e retomei o olhar à ela. De longe, era ainda mais "mulher". Tinha um semblante espetacular de se portar. Vi ali, o que realmente era uma mulher de verdade. De beleza madura e consciente disso. Sem se exaltar. Era apenas mulher... Passei a noite pensando se um dia, minha futura esposa teria a mesma vaidade depois de anos de casamento, ou se inspiraria simpatia mesmo diante de um espelho, vendo que sua beleza, deixava de longe, duas meninas na flor da idade, parecerem crianças mimadas que cuidam de seus corpos como de suas bonecas Barbie...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A dieta do palhaço

A tarde caía rapidamente e os moradores de rua já demarcavam seus territórios. As portas de aço rolavam com rispidez ao som ecoado quando chocadas ao chão. Era um sábado, como outro qualquer na esquina da Rio Branco com a Nilo Peçanha. E após um dia carregado, entre compras e trocas, estava faminto, definitivamente. Iniciei minha busca por um lugar a se lanchar com decência. Descartando qualquer pastel chinês 24h e fast-foods. Andei como nunca. Todos já repousavam em suas casas. E eu, não poderia enfrentar duas horas de congestionamento na nossa agradável Av. Brasil, faminto. Exausto, vi como uma miragem maldita, os arcos dourados brilhando foscamente no alto, em meio a outdorrs. O maldito Mc'Donald's. Após sete anos longe da dieta do palhaço macabro, tive de me render aos apelos do meu estômago.
Entrei desconfiado, porém, não intimidado com o marketing estúpido de cores e personagens. Fui direto e pedi um Big Mac acompanhado por refrigerante médio, nada mais. Logo, tive de ser grosseiro até conseguir rejeitar a proposta de refrigerante grande e batata-frita. De pé, observei como espião como preparavam meu sanduíche por detrás das máquinas. Sempre desconfiado, tenso. Tomei meu pedido e sentei-me numa mesa distante. Daí começou a enchente de arrependimento. Meu refrigerante, antes uma Fanta, tinha kilos de cubos de gelo, o que anestesiava a boca como Lidocaína. Aguada... Tampada a mascarar a sabotagem. A caixinha onde jazia o tão famoso Big Mac, um tanto torta, fora aberta na esperança de depois de anos, ter se redimido quanto ao meu paladar. Deixei a formalidade de lado e pensei: "- Porra nenhuma!". Ainda parecia um bicho recém executado e tostado ainda em vida. Sem qualquer semelhança ao banner acima de minha cabeça. Após quatro ou cinco mordidas caninas, achei a cereja do bolo, que por pouco não me fez vomitar. "Esqueci da porra do picles!!!" Larguei metade do refrigerante aquoso e o Big Merda, mutilado como um cadáver sobre a mesa... Parecia sangrar. Saí rapidamente, com um gosto amargo na boca e um desgosto azedo no coração nacionalista, em saber que meu país abriu tantas portas para essas fábricas de lixo. Senti saudades das empadas da dona Edite...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A morte de uma amizade

Shakespeare dizia que melhor que fazer novas amizades é manter os velhos amigos. Genial, de fato. De passagem, ele fez muitos amigos depois que se fora. Quem sabe tenha mantido enquanto vivo. Eu, de passagem, não...
Quando adolescente, acreditava que tudo seria o sempre, até o dia de minha morte - talvez. Mas o tempo, além de trazer minha glória, minha felicidade, me tomou o que um dia parecia infinito: Minhas antigas amizades. Há quem fora levado pela morte, pela distância necessária, pelo sucesso profissional, de cada um. Mas de todas as perdas, o tempo foi o maior ladrão. Como a maresia corroe o aço que ancora o barco à beira-mar. Porém, desta vez, a onda não traz de volta.
O tempo, meu caro, não adverte. Um dia você estará sentado, tomando uma cerveja, jogando conversa fora. Quando perceber, ao seu lado estará um estranho. Não mais com quem você dividia seus problemas e seus momentos felizes. E sim, meu caro, alguém que não te faz bem, nem te faz diferença. Só mais um... Apenas um estranho. Nada mais...
Eis a morte de uma amizade...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Na minha "Umbre-ela"...

A chuva golpeava o telhado da cobertura bruscamente. Meu guarda-chuva parecia não mais sustentar-se. Quando surgiu no breu, uma figura feminina de pouco mais de trinta anos, completamente encharcada, desviando-se das poças d’água. Quando pensei em oferecer meu guarda-chuva, notei que a água provocava um apego de sua blusa branca ao seu corpo acentuado, logo desisti.
Ela abraçava o próprio corpo, com frio, e as gotas pingavam de seus cabelos escorridos, grudados em seu rosto. A chuva já não parecia tão forte, comparada ao dilúvio que ocorria em minha mente.
Um forte clarão iluminou tudo à volta e a mulher estendeu seu braço a frente, dando sinal ao ônibus, o qual eu já havia esquecido que esperava. Assim que parou exatamente à minha frente, estendi o guarda-chuva à sua cabeça e lhe dei passagem. Sorridente, ela agradeceu-me e subiu a minha frente, ainda completando:

“ – Ainda bem que ainda existe cavalheirismo!”

Assenti falsamente, com um sarcástico sorriso nos lábios.
Mal sabia que ao passar na minha frente, me concedeu uma bela visão de sua bunda, molhada, marcando a espessura de sua pequena calcinha...

sábado, 10 de outubro de 2009

Que assim seja

Quando houver nossas fotos penduradas na geladeira
Quando revezarmos as noites pra esquentar a mamadeira
Quando ver nosso cachorro correndo no quintal gramado
Com cerca de madeira pintada de branco
Quando a gente se beijar no corredor do supermercado

Quando vermos nosso filho engatinhando no tapete da sala

Quando eu te ter no meu colo, afagando seus cabelos
Quando contarmos nossas rugas na frente do espelho

Quando eu te acordar na manhã de domingo com um beijo na testa

Quando eu te ligar só pra dizer que te amo

Quando a gente adormecer no sofá da sala, sábado à noite

Quando a gente assistir o pôr-do-sol

Quando eu te ligar pra te lembrar de tomar o seu remédio

Quando a gente sentar no chão, procurando o disco da trilha sonora de nosso primeiro beijo

Quando eu te molhar com a mangueira enquanto regava as flores do nosso jardim

Quando eu ver nossa felicidade estacada num porta-retratos

Quando a gente contar as estrelas, deitados na areia

Quando eu ver nossas vidas completas.

Quando te assistir dormindo, com as mãos debaixo do rosto, como há vinte e seis anos atrás.

Como quando éramos jovens,
Como é agora,
Como te amo,
Como nunca deixei de te amar um só dia.
Como vou deixar meu corpo frio ao lado teu,
E te esperar no além,
Pois nossa história não tem fim,
Sou só eu feito pra você e você feita pra mim.

sábado, 26 de setembro de 2009

Os pilares da felicidade

Quando criança, costumava acordar às seis da manhã. Calçava-me às pressas, com os olhos cheios de areia e corria para a varanda pra esperar minha mãe. Descíamos o longo caminho de nossa casa até a estrada, pra esperar o padeiro passar com sua velha Brasília bege. Em meio aos pães franceses, minha mãe levava alguns cruzeiros a mais pra comprar um pão suíço. Um dia era meu e noutro, de minha irmã. Confesso que nos dias que não eram meus, desejava que seu pão suíço caísse no chão (Como criança é boba!).
Quando o natal se aproximava, folheava os jornais da Casa & Vídeo, vendo preços dos vídeo games recém-lançados e mesmo sabendo que não o teria nem tão cedo, circulava ofertas, lia e relia três, quatro vezes. Tive meu primeiro Master System, vendendo frutas que meu avô me cedia nas feiras de Domingo. E como dei valor a aquele brinquedo... Assoprava, polia, Dobrava os fios metricamente. Era um devoto do Sonic.
Ainda novo, construímos nossa própria piscina. Com pedras da cachoeira e regada pela mesma. A água cortava a pele de tão fria, mas lá ficava, de dedos enrugados, feliz da vida.
A vida não foi fácil. Era difícil pra uma criança assistir o comercial dos Comandos em ação sem ter o helicóptero no tapete da sala. Mas por outro lado, o pouco que tivemos, foi usado até perder a cor, o brilho, mas não perdeu o valor. De uma vida digna, banhada de bons risos e momentos inesquecíveis (Certo macaco Tião?). Não tínhamos por perto tudo que se desejava, mas tínhamos um valor maior que qualquer brinquedo da Estrela, Vídeo cassete de 7 cabeças ou a Boneca Barbie original: Tínhamos (E temos...) a nós mesmos...

sábado, 12 de setembro de 2009

Bebês arianos

Eles estão por toda a parte: Nos pacotes de fraldas, nos outdoors, nos planos de saúde, em animações infantis. Senão fosse o cheiro de talco, me cheiraria a uma grande conspiração. Um renascimento oculto do Nazismo, onde o mundo está sendo conquistado aos poucos pela raça ariana. De bochechas rosadas, cabelos repartidos a lá Hitler e dedos gordinhos apontados à sua cara. São preferidos e idolatrados, todos querem ter um. A lista de espera na adoção, rejeitam os demais como num campo de concentração. Dessa vez, sem holocausto. Somente uma fogueira social que aquece as vaidades dos adoradores de cabelos loiros e olhos azuis. É o mundo como todos queriam, mas que não admitem na frente da televisão. Onde a diversidade dá lugar a um desejo uniforme, linear e estúpido.
Nunca vi fralda com estampado de criança negra, e acredito que meu filho vá nascer, crescer, parar de defecar em si mesmo e essa história não vai mudar. É a oculta e sombria Suástica invertida que habita o coração de muita gente por aí.

domingo, 9 de agosto de 2009

A loira do corredor

Eu estava sentado à beira do corredor, excepcionalmente de casaco sobre os ombros como um gentleman urbano, de pernas elegantemente cruzadas com a mão esquerda no queixo e a direita segurando a caneta. Refletindo sobre a implantação da ditadura militar promovida por Vargas no Brasil. Um tanto mais de elegância e seria quase um Willian Bonner, me faltando apenas um terno e uma Fátima Bernardes. Foi aí que ouvi à minha esquerda, passos medidos e virei minha cabeça. O tempo ficou em slowmotion, quando me vinha uma jovem loira caucasiana, de olhos verdes semi-acirrados, marchando belamente em minha direção. Parecia comercial de xampu, seus cabelos esvoaçavam em abundância, passo a passo. Simplesmente cinematográfico. Ao chegar próximo de mim, o espaço era curto, então investi-lhe uma olhada de Jude law e afastei minha perna, outrora cruzada, pra deixar que a dama passasse antes que parasse – pois isso seria deselegante.
Com toda a sinceridade, esperei um leque de atitudes daquela jovem: Um “obrigada”, um sorriso meia-boca, um “com licença” mesmo que ainda não a atrapalhasse ou simplesmente um desprezo, considerando o fato que ela fosse fiel a um suposto namorado. Mas em vez disso tudo, ela simplesmente foi passando e ao chegar ao meu lado, abaixou a cabeça levemente, deslocou seus olhos verdes e (Nesse momento meu coração palpitou mais forte) olhou a marca do meu tênis. Não contente, andou mais três passos e olhou pra trás, pro meu tênis novamente.
Senti-me decepcionado, não pelo fato de não ter a atenção da bela jovem (Como ela, despojei outras, modéstia à parte) mas pelo fato de concretizar minhas faculdades de que essa juventude me envergonha. Por sua falta de cordialidade, educação, coleguismo e esse abismo que existe entre os valores da vida e os valores materiais. Melhor dizendo, dessa classe social que em vez de diferenciar “socialismo”, diferencia “humanos” de “humanitários”. Voltei meus pensamentos ao estado novo de Getúlio Vargas, pois senti vontade de envelhecer o mais rápido possível, mas assim encurtaria minha vida sexual, seja com jovens fúteis, seja com mulheres que sabem o que vale a pena...

Fecha aspas.

sábado, 18 de julho de 2009

Não contém glúten

Quando se trabalha pela madrugada, os contatos sociais são escassos. Por isso faço amigos invisíveis, recebo visitas espirituais e jogo “resta um” (Quem se lembra dessa beleza?). Além de todo esse ritual, você fica mais perspicaz também. Tudo que vê, lê. Tudo que cheira bem, inala, tudo que parece gostoso come, você vira um cão vira-latas, quase que literalmente. A grande diferença é que na Barra da Tijuca, é que em vez de cheirar as cachorras antes de cruzar, deve-se fazer elas cheirarem sua carteira. Se tiver um safári de onças pintadas e um American Express, você está dentro. Mas voltando ao assunto, almoçando às 2:30 da manhã, me divertia furtivamente lendo embalagens de produtos comestíveis, quando notei que a maioria continha em seus rodapés, uma mensagem clara, com direito a Caps Lock e tudo: “NÃO CONTÉM GLÚTEN”. Achei ela interessante e pro fabricante se dar ao luxo de destacar assim, é porque glúten deve ser o demônio mesmo! Tal feito mudou minha vida, e hoje sou mais seletivo no que como. Antes de me preocupar com camisinha, pergunto a mulher se ela contém glúten.

sábado, 27 de junho de 2009

Como ser um cidadão sexual

...Os beijos, abraços e carícias já estavam atingindo a temperatura supernova quando decidi que era hora de levar o animal pra abate. Estava ela: linda, morena e feliz. Ela me olhou nos olhos e disse: “Eu não quero dormir em casa hoje!”. Pedido atendido. Se tem algum lugar que fica aberto 24 h sem ser sua casa, esse algum é o Habibs. Mas como não queria comer nada com a boca, preferi ir pro motel mesmo. Chegando lá, pedi Apê com discrição, com meia fresta da janela aberta. Foi aí que a recepcionista me pediu que adiantasse 50% do valor. A princípio até aceitei e saquei minha humilde carteira, mas depois pensei com meus botões e achei aquilo um grande preconceito. Questionei arrogantemente e ela afirmou ser “Procedimento da casa”, e logo lamentou-se falsamente. Desliguei o carro, saí dando uma bela porrada na porta (essa parte foi cinematográfica) e mandei chamar o gerente. Quando o sujeito chegou, já cheguei discretamente gritando: “Por que a porra da casa quer me cobrar adiantado? Nem quando eu entrei com dois casais foi assim!”. O gerente me pediu que tivesse calma e me chamou pra conversar no canto. Questionei: “ – Ô meu gerente! Isso é igual self-service... Primeiro a gente come, depois a gente paga... Se eu quisesse pagar e comer eu iria na terma. To certo meu caro!?” O gerente embaraçado, me disse que tinha toda a razão, mas que era procedimento da casa. Parecia atendente de telemarketing. Só faltava falar no gerúndio. Tive um lapso de classe social e puxei minha carteira como se fosse uma pistola 380:
“ - Você ta duvidando que eu tenho dinheiro? Olha aqui ó! Escolhe como eu quero te pagar!”
Fiz um leque em minhas mãos, como um jogador de poker profissional. Nele estavam meus trunfos: Dois Mastercard’s, sendo um estourado e um adicional. Um cartão de débito com CC sem fundos. Meu ticket de alimentação que só aceita comer coisas em mercados, Meu Riocard, Meu cartão da Unimed e por fim sem desmerecê-lo, meu calendário do Flamengo! (O mais bonito da jogada, quase um Royal Straight Flush). Fiz isso tão rápido que antes que o gerente pudesse ver minhas cartas, minha carteira já estava no bolso. Mas pra ele pareceu um baralho de American Express. (Se ainda assim duvidasse, meu carnê das Casas Bahia tava no porta-luvas, pronto pra virar um talão de cheques do Unibanco Uniclass.). Puxei meu malote de nota de R$2,00 do bolso e folheei na cara dele, virando e desvirando. Afinal, Tartaruga parece bastante com a Garoupa da nota de R$100. Ele coçou a cabeça e disse que ia abrir uma exceção. Se desculpou, e saiu andando. Gritei:
“ – Onde é que você ta indo? Pode ir chamando faxineiro, garçom, camareira, cozinheiro e o senhor também! Agora tem que empurrar meu carro porque essa porra só pega no tranco!

sábado, 13 de junho de 2009

Todo mundo é parecido quando sente dor

Fazia meses que não assistia TV, aliás, desde o desmame da infância, nunca mais senti saudades dela. Semana passada, resolvi fazer as pazes com o controle remoto e liguei a dita cuja. Logo, fui surpreendido por um plantão de um tele-jornal sobre a queda do avião da Airfrance (que Deus o tenha). A matéria estava focada na dor e sofrimento de amigos e familiares das vítimas, em que o repórter parecia excitado em mostrar as lágrimas do outros bem de perto. A princípio ignorei. “Pessoas morrem a todo canto e a todo instante e ninguém se importa”, pensei. Afinal, nunca gostei do ar de superioridade dos franceses, Mas a cena acabou me chamando a atenção. A expressão daquelas pessoas parecia purificada, era a dor verdadeira, que as desmembram de qualquer classe social, nível cultural, beleza exterior ou mérito nacionalista. Eram apenas seres humanos, como todos deveriam ser a todo instante, esquecendo dessas linhas que nos separam, e mostrando compaixão. Logo, perceberam que estava sendo filmados, secaram rapidamente as lágrimas e esconderam seus olhos atrás de seus D&C’s, Armani’s e etc. Voltaram a ser franceses e eu voltei a ser brasileiro. Desliguei aquele monstro que acabara de me hipnotizar e fui fazer um misto quente, totalmente despreocupado.

sábado, 6 de junho de 2009

O cheiro do pecado

...A bela jovem embarcou no ônibus, apressada e cabisbaixa. Atravessou o corredor rapidamente olhando para os lados, sentando no primeiro lugar que viu e fixou seu olhar ao horizonte ao seu lado. Eu paguei a passagem calmamente e deslizei pelo corredor procurando um lugar a sentar, e por mera coincidência, o único lugar vago era ao lado da jovem. Pedi licença cortesmente e sentei-me reservado. Mas foi impossível não notar a sua presença. Ela trajava uma curta saia branca que revelava facilmente mais da metade de suas pernas. Uma blusa levemente decotada e seus cabelos úmidos ainda escorriam algumas gotas de água que pingavam eu seu ombro como numa chapa quente, gotejavam e pareciam evaporar ao seu calor. Fiquei ali, sem olhá-lha, mas notava que ela tinha um pequeno sorriso aos lábios e olhava para o nada, contemplando seus pensamentos. Foi quando notei um frescor no ar, um cheiro comum, mas que me fugia à memória a sua origem. Fiquei aspirando aquele cheiro por minutos, até me aproximar mais alguns centímetros da bela jovem a fim de aprimorar o olfato e matar minha curiosidade. Varri minhas lembranças mais remotas, incansavelmente até descobrir de onde conhecia aquele cheiro. Tudo foi se clareando vagamente e num estalo a lembrança veio à tona. Já tinha absorvido aquele cheiro por vezes. Olhei para o lado quase sorrindo, olhei-a de cima a baixo e ela pareceu entender. Parecia entender que eu sabia e aprofundou ainda mais seu olhar à janela, parecendo envergonhada. Procurei não incomodar, levantei-me e a deixei sozinha a se deliciar com suas lembranças. A três assentos adiante, estava eu a recordar, agora de minhas próprias lembranças... Inconfundível aquele cheiro de sabonete de motel...